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Poetas com a letra A

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Moderador Poetas com a letra A

Mensagem  Hugo de Santis em Ter Nov 09, 2010 4:08 pm

AVISO: Seguindo este parâmetro, visando maior organização do forum, colocaremos o nome do poeta todo em letra maiúscula, logo após o nome do poeta, pula-se duas (2) linhas e escreve-se a poesia

AUGUSTO DOS ANJOS

As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos

Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética, nos moldes da velha orientação impressionista, que é de todas a menos operante. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Não me parece, contudo, esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. Nalgum ponto, senão em mais de um, é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária, inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano, no que há de mais sutil e imponderável.

Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes, quando, na verdade, não conhecemos sequer a nossa. Deste modo, já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal, paremos reverentes à porta do templo, numa atitude de respeito e reflexão, desejosos de, ao menos, poder conhecer a árvore pelo fruto. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra, isto é, o eu fora do Eu. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. Sua personalidade singular ali se projeta, o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Por conseguinte, não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra, sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado.
Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. Fazer o elogio do poeta, realçar a força de sua inteligências manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico, que o não convencia de todo, já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas, quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. É preciso, pois, acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário, em suas mensagens de angústia.

A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada, não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo, compreendendo inclusive a estilística, proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. Nessa tentativa de interpretação psicológica, penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava, na chaga viva de sua consciência, entrava em crise espiritual, e era aí, nesse estado de superexcitação, que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel.
Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal, nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. Teria sido um neurótico para uns, um psicastênico para outros, segundo os síndromes patológicos revelados. Seja como for, tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica, repetindo conceitos, por vezes controvertidos, sobre o seu caso clínico, como é do gosto da crítica científica, de fundo genético, que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e, no final, reduzir tudo a categorismo, que nada explica. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco, mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade.
Juízo é coisa que todos julgam ter, mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura.

Augusto não era um homem igual aos outros, aos que se acomodam, aos que se rebaixam para subir, enfim, aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. A mãe do poeta, quando este ainda em estado de gestação, sofreu uma comoção das mais fortes, causada pela perda imprevista de um irmão querido, estudante de medicina, de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe, perturbou-a por muito tempo, além mesmo da gravidez. Ao que se sabe, ficou desajustada da mente pelo resto da vida, com preocupações de grandeza e fidalguia. Obviamente, tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação, com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso.

Explica-se deste modo, pelo drama que padeceu na vida intra-uterina, o refinamento de suas faculdades morais, caracterizado por uma sensibilidade doentia, tiques nervosos, sestros, fobias, enfim, todo o seu temperamento emocional. Tanto isso parece verdade que seus irmãos, igualmente inteligentes, jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Nem os que nasceram antes, nem os que vieram depois. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. Pai e irmãos passavam por normais, só ele dava a impressão de um desajustado, como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Isto posto, assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos, não há negar também a dos psicológicos, sobretudo quando provém da linha materna, nas modalidades do caráter, da inteligência, do sentimento.

Por seu parentesco espiritual, tem sido Augusto comparado a Leopardi, Nietzche, Byron, Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores, na classificação dos antropologistas do século passado, a partir de Lombroso. E por curiosa coincidência, tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. Assim como a mãe de Augusto, a de Leopardi, a de Nietzche, a de Byron, a de Wilde, por motivos vários, sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos, choques emocionais, menos a de Byron, que já era constitucionalmente quase louca.

Sem o concurso da causa primária, em relação com a casuística, não é possível interpretar a obra de um escritor, sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de Augusto com a sua personalidade psicológica, porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica.

Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco, na várzea do Paraíba. A paisagem bucólica da várzea, a quietude da vida na província, a sua própria vida sem problemas, estavam a fazer dele um lírico, inspirado na natureza e no amor, não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço, agravados por outros que irromperam na idade perigosa, os quais o acompanhariam, como uma fatalidade, até o túmulo. Com seu pai, dr. Alexandre dos Anjos, aprendeu a ler e, sem afastar-se do lar, guiado apenas pela ilustração paterna, entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Deste modo, quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano, no último ano do século passado, ao invés de um estudante bisonho, saído da roça, foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. A par disso, era um introvertido, em contraste com a mocidade e a inteligência, segundo os primeiros retratos que temos dele.

Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta, cinco anos após a sua morte, em prefácio à segunda edição do Eu, que lançou em 1919, com o título Eu e Outras Poesias, reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912.

Quando Órris o conheceu nos idos de 1900, viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Era de fato um excêntrico, mas não era somente isso. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Nada de admirar, visto ter nascido poeta. O que há de singular nele não é, a rigor, o seu tipo de pássaro molhado, é a vocação que já revelava para o infortúnio. O rapazinho de 16 anos, cuja vida corria sem obstáculos, confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”, conforme disse num soneto que não consta, do Eu, publicado no Almanaque do Estado da Paraíba, em 1900. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. Logo mais, em Monólogos de uma Sombra, definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”.

Muito cedo, para maior complicação de sua personalidade, começou a envenenar-se com o materialismo filosófico, haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia, sofregamente bebida nas academias, para aprazimento intelectual das elites. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana, de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função, como expressão do pensamento nacional. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. Já em 1875, Sílvio Romero, numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife, bradava para o conceituado mestre que o argüía, Coelho Rodrigues, que a metaflsica estava morta. Falava nele o positivista que, logo mais, evolvia para o evolucionismo de Speneer. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa, em sua linha tomista, sofreu duros reveses, mas no final de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral, por ver em tudo isso hipóteses visionárias.

Era a época da evolução do pensamento brasileiro, que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. Martins Júnior, adepto do positivismo, a exemplo de Victor Hugo, nas concepções filosóficas de seus poemas, introduziu entre nós a poesia científica, que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta, Aliás, desde Haller, um século antes de Hugo, já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos.

Foi nesse ambiente de agitação doutrinária, já no seu ocaso, quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico, Laurindo Leão, que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola, de onde saiu formado em 1907. Ao que parece, a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. Por todo o Nordeste, irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser, desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico, como uma velharia do século. Desses embates, a velha Escolástica, que só cuidava de preocupações teológicas, suportou a mais dura crise, mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. Comte passou. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação, mas a origem simiesca do homem, proceda ou não proceda, não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma, que, como toda substância animada, está sujeita também ao processo da evolução. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede, enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos, conciliada, aliás, com a evolução da matéria e do espírito.

Na Paraíba, os intelectuais mais dotados, já lidos nos filósofos da natureza, formavam rodas para discutir o sexo dos anjos, ou mesmo, se o diabo é tão feio como o pintam. Os menos letrados, os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica, faziam praça de livres pensadores. O beatério era o último reduto do catolicismo. Até no Piauí, segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco, em seu livro Frases e Notas, firmava-se o conceito, aliás bem pouco lisonjeiro, de que católico era sinônimo de burro.

Nas rodas que se faziam na Paraíba, Augusto pouco falava. Esquisitão que era, ficava a escutar os companheiros, o pensamento ao longe, o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife, José Américo de Almeida, disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Ainda na fase preparatória de estudos, o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento, isto é, entre o mundo da forma e o mundo da razão, como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjectiva de si mesmo. Embora educado na religião católica, emancipou-se dela intelectualmente, influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força, confundidas ambas na unidade cósmica. Desta forma, em sua, dupla feição de filósofo e de poeta, tentou o milagre de reduzir a um campo único a ciência e a arte. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Quem já o leu uma vez, como bem observa Cavalcanti Proença, facilmente o identifica, ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso.

Aos 17 anos, naquela mesma idade em que, trinta anos antes, Rimbaud escrevera Bateau ivre, Augusto compôs Monólogos de uma Sombra, poema que abre o Eu e Outras Poesias. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud, mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta, Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota, que é a derrota da humanidade. Não há, todavia, nas duas composições uma coincidência de temas, mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Vejamos, como amostra, as duas primeiras estrofes dos Monólogos:


Sou uma Sombra. Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias.

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas,
E a morbidez dos seres ilusórios!


E por aí vai, numa caminhada de 31 estâncias, 186 versos, e—crente no tema, terso na linguagem, incomparável na forma musicada. O aspecto conceptual do poema, fundado na unidade cósmica, bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. É a sua confissão de f transformista. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária, na larva que procede do caos telúrico, e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas, identifica-se na substância primeva, que passou do reino vegetal para o animal, depois de infinitas transformações. A partir da monera, chega aos seres mais complexos, por força das sucessivas mutações da matéria. Encontra-se, enfim, já diferenciado na mônada, sempre a evoluir em movimentos rotatórios, até adquirir a forma humana. Integrado na sociedade, começa então o drama crucial da consciência. Não sofre apenas a sua dor, mas “a solidariedade subjectiva de todas as espécies sofredoras”. E assim continua, já desiludido, a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana, ora transfigurado em filósofo moderno, “esse mineiro doido das origens”, desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal, ora transfigurado em sátiro vilíssimo, a consciência conspurcada de gozo malsão, o remorso já acordado na caverna escura. Por fim, sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. Nesse estado d’alma, entrega-se ao sacrifício, chamando a si, numa espécie de solidariedade subjetiva, o sofrimento de toda a humanidade.

E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!

Bem examinada a questão, temos aí um transformismo metafísico, que faz quase lembrar a reencarnação. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. A partir dai, sente o remorso a queimar-lhe a consciência, uma espécie de fogo que devora e não consome. No fundo, Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra, assombrado com o não-ser, embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. Por alma, entendia o agregado abstrato da saudade, posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade.
A rigor, a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos, dentro do mundo fenomenal, onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. É a concepção monística, segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância, o que vale dizer, no princípio era a força. A mesma coisa, do ponto de vista metafísico, já havia dito, dezenove séculos antes, o vidente de Patmos: - No princípio era o Verbo.

No tocante à transformação da matéria, tantas vezes exaltada pelo poeta, há que distinguir um pormenor, que a ele não interessava considerar. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações, como está dito em Monólogos de uma Sombra, força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. E por que não admitir logo a alma?

Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito, cuido não estar proferindo uma heresia. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve, noção trivialíssima das funções orgânicas. Nada obstante, conheci um sujeito, natural de minha terra, que tinha os ouvidos totalmente tapados, as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e, no entanto, ouvia mais que um tísico. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som, respondeu-me que por todo o casco da cabeça.

Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro, em esconderijos apropriados, com sótão e porão, segundo querem os frenologistas. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana, centro de toda a acuidade sensorial. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. O próprio Augusto, diante das maravilhas do aparelho encefálico, manifestou o seu espanto, sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Eis que assim se expressa em Os Doentes:

A vida vem do éter que se condensa,
Mas o que mais no Cosmos me entusiasma
É a esfera microscópica do plasma
Fazer a luz do cérebro que pensa.


Nem por isso admite Deus. Mas como é preciso preencher um claro na consciência, admite o éter, o éter cósmico, que é o Deus materialista de Haeckel.

Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Ao invés de fecundação do espírito, só serviu para adensar o clima de alucinação. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. O mundo em que vive é um vasto hospital, onde não há lugar para a alegria, um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. O próprio amor, fonte inesgotável de vida, causa-lhe repugnância. Por toda parte, a matéria putrefata, o lado malsão da vida, onde imperam sombras, vermes, cadáveres e bocas necrófagas. Em tudo, uma natureza gasta, servindo de pasto a uma civilização corrompida. Querendo fugir a essas coisas, procura penetrar o mistério da substância universal, rasgar do mundo o velário espêsso, perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir, mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido, inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes.

Na idade em que os encantos do mundo douram a existência, Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida, dominado por um ceticismo acabrunhador. Custa crer que este soneto - Psicologia de um Vencido - tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr, na melhor das suposições, sem problemas materiais:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas,
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


Assombrado com o futuro, firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista, que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. No auge da inquietação, faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se, impreca, solta blasfêmias. Exausto da luta, procura refúgio na inexistência espiritual. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. E para não capitular a esse apelo, para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas, tenta ir ao fundo da crença monística, na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego.

Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de bilhões de raças
Que, há muitos anos desapareceram!


Nesta temática vai longe, gasta imensas energias e enche de culminâncias, com o poder de sua imaginação, o Eu e Outras Poesias. Mas o diabo não larga a sua presa. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Com efeito, não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. O subconsciente o aturde. Grita a sua dor por toda parte e, já cansado de escutar a natureza, sente o desejo, que ele denomina um sonho ladrão, de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. Espera aí encontrar o seu nirvana. Por um instante, evadido de si mesmo, numa atitude mental de fuga à realidade, supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. E é nesta manumissão schopenhauriana, como se já tivesse despido a carcaça da matéria, que exulta triunfante:

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das idéias!


Mas de novo se encontra em face do nada. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. A julgar pelos seus gemidos, não há homem que sofra mais. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. Onde quer que se refugie, acompanham-no, em suas visões oníricas, monstros terríveis. Nenhum pintor, diz ele, seria capaz de executar o quadro de suas aflições, pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem.

E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Antes de mais nada, leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Depois disso, a perda da crença e, paralelamente, a terrível moléstia que se atribui. Tudo isso, no todo ou em parte, podia exercer influência no temperamento sensível do poeta, podia fazer dele um triste, mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado, como se supunha.

Algo de mais grave, como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça, deve ter acontecido na sua juventude. Há, com efeito, uma desgraça na vida do poeta. Até agora esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato, desespero virtual e não real. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça, que é o drama mais doloroso de sua consciência.

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E via em mim, coberto de desgraças
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
Para iludir minha desgraça estudo.
Minha desgraça há de ficar sozinha!


E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Por suas próprias palavras, não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Trata-se, pois, de uma paixão, cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Exatamente aí, no capítulo do amor, é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor.

Por enquanto, no tocante a esse drama, não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária, inútil seria qualquer esforço, dada a ausência de biografia. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar.

Por mais que Augusto negue o amor, não pode ocultar que foi vítima dele. Por mais que procure fugir ao assunto, sempre se revela. Ele próprio, em - A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida, depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor.

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio...
Iríamos a um país de eternas pazes,
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos
E finalmente me cobri de flores.. .
Mas veio o vento que a Desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade.
E a grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!
Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!.. .
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dois realejos
Estão chorando meus amores mortos!


Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:

As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, porque sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...

Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!”

Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/...

A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”...

Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.

As alucinações táteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam;
A asa negra das moscas o horroriza.
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!


A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:

Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!
Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!
A cor do sangue é a cor que me impressiona
E a que mais neste mundo, me persegue!
Essa obsessão cromática me abate.
Não sei porque me vêm sempre à lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.

Quisera qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até o fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memória.


O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:

Todos os personagens da tragédia,
Cansados de viver na paz de Buda,
Pareciam pedir com a boca muda
A ganglionária célula intermédia.

O instinto de procriar, a ânsia legítima
Da alma, afrontando ovante aziagos riscos,
O juramento dos guerreiros priscos
Metendo as mãos nas glândulas da vítima;

As diferenciações que o psico-plasma
Humano sofre na mania mística,
A pesada opressão característica
Dos dez minutos de um acesso de asma;

E (conquanto contra isto ódios regougues)
A utilidade fúnebre da corda
Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,
A morte desgraçada dos açougues...

Tudo isso que o terráqueo abismo encerra
Forma a complicação desse barulho
Travado entre o dragão do humano orgulho
E as forças inorgânicas da terra!


E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:

Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psiquê no oculto jogo,
Morressem sufocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!


Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica.

A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão...


Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...”

Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou.

Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta:

Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes!

O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma santa, que não é das mais invocadas. O poeta, como é sabido, nunca foi chegado a santos, mas no poema - Insônia - referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada, surpreende com a invocação de Santa Francisca, ao mesmo tempo que, contrito, confessa mais uma vez a sua culpa.


CONTINUA...


Última edição por Hugo de Santis em Ter Nov 09, 2010 5:17 pm, editado 2 vez(es)
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Hugo de Santis

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Moderador (CONTINUAÇÃO)Augusto do Anjos

Mensagem  Hugo de Santis em Ter Nov 09, 2010 4:13 pm

Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo
Passou de certo por aqui chorando!
Assim, em mágoa, eu também vou passando
Sonâmbulo... Sonâmbulo... Sonâmbulo...

Que voz é esta que a gemer concentro
No meu ouvido e que do meu ouvido,
Como um bemol ou como um sustenido,
Rola impetuosa por meu peito a dentro?!

Porque é que este gemido me acompanha?!
Mas dos meus olhos no sombrio palco
Súbito surge como um catafalco
Uma cidade ao mapa-mundi estranha.

....................................

Vejo diante de mim Santa Francisca
Que com o cilício as tentações suplanta,
E invejo o sofrimento desta Santa,
Em cujo olhar o vício não faísca!

Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,
Depois de embebedado deste vinho,
Sair da vida puro como o arminho
Que os cabelos dos velhos embranquece!

Porque cumpri o universal ditame?!
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Porque não evitei o precipício
Estrangulando a minha carne infame?!

Até que dia o intoxicado aroma
Das paixões torpes sorverei contente?
E os dias correrão eternamente?!
E eu nunca sairei desta Sodoma?!


De outras vezes, como em - Queixas Noturnas - extravasava desta forma o seu lamento:

Quem foi que viu minha Dor chorando?
Saio. Minha alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Bati nas pedras de um tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza a minha única saúde!

Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Da mãe, entretanto, pouco fala, apenas três vezes, isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”, como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Ao pai, que parece se deixou levar por pressão da família, ama-o até mesmo na atômica desordem, quando a morte o olhar lhe vidra. Ao vê-lo morto, expressa a sua mágoa numa comovente unção, em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição.

Madrugada de treze de janeiro,
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro.

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu.


De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida, sem resolver a verdade interior. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. A morte é o fim de tudo, mas para os que crêem há ainda uma esperança, não para ele, que não admite a vida espiritual. E porque a visão da morte não o deixa em sossêgo, luta por fugir dela, como perseguido pela sinistra ceifeira. Em - As Cismas do Destino - brada:

Morte, ponto final da última cena,
Forma difusa da matéria imbele,
Minha filosofia te repele,
Meu raciocínio enorme te condena!


E num horror quase pânico exclama, em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. E ainda, em A Ilha de Cipango:

Tenho alucinações de toda a sorte...
Impressionado sem cessar com a morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas
Atravessando os ares bruscamente.


Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada, em cujas entranhas um feto magro estendialhe as mãos rudimentares. Aqui, como em toda a obra, as palavras também servem para ocultar o pensamento.

Nestas condições, desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista, é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Já que não crê em Deus, alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Procura assim desoprimir o coração, desabafando-se nestes termos contra a natureza:

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!


Presumivelmente, devia ter na época, quando recebeu os 22 açoites da natureza, 22 anos de idade. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé, não cria em Deus, embora ansiasse por encontrá-lo. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Vivia um mundo à parte, cheio de imperfeições, habitado por monstros humanos. Nada o consolava nesse estado de espírito, pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Ao invés de ajustá-lo à realidade, levava-o a recolher-se em si mesmo, ardendo em indagações subjectivas, que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito.

Acha Flósculo da Nóbrega, ilustre membro da Academia Paraibana de Letras, que Augusto era um cerebral, escravo do raciocínio frio, tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. Não me parece tenha razão o ilustre intelectual paraibano. Fosse como ele diz, teria Augusto encontrado satisfação na filosofia, não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade, não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Era, ao contrário, um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico.

Na luta em que Augusto se debate, torturado no sentimento do desamparo, volta-se vez por outra contra a sociedade. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Não que tenha recebido ofensas dela, mas porque se sente um desajustado, um homem excluído do mundo. De um modo geral, via na sociedade a representação da humanidade sofredora, mas no particular, o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco, que só repugnância lhe causava. Ao contemplar esse ambiente, toda a mágoa do seu espírito vem à tona.

Os seus melhores versos, os de maior densidade emocional, foram produzidos no Pau D’Arco. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente, entrava em crise espiritual. A inspiração despertava com a dor. Punha-se então a passear, noite a dentro, ao redor da capela do engenho, como um sonâmbulo, andar bamboleante, passos largos, o cérebro em fogo, conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos.
Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. Depois que o poeta deixou a Paraíba, em 1912, sua musa empalideceu à falta de ambiente. O que produziu no sul do País, além de pouco, destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal, excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas, que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul.

Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana, que o acolhia com carinho. Desta, nunca recebeu hostilidades. No fundo, podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade, de vez que ninguém o compreendia. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Nem ele próprio se conhecia, conforme declarou nesta honesta confissão, em Poema Negro:

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.


Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo, tinha-se na conta de um doente, condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Há, contudo, no caso, um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose, que o próprio poeta confessava. Essa real ou imaginária doença, aliada à descrença, fez dele um misantropo. Em As Cismas do Destino, confessa-se minado pela tuberculose.

Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minha alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.


Mais adiante, em Os Doentes, depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome, entra a descrever a cidade dos lázaros, imaginária cidade à margem do Paraíba, na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Era ali, “na urbe natal do Desconsolo”, como ele chamava, que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. De início, atormenta-se com a idéia de que, sob os seus pés, na terra onde pisava, havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Depois disso, numa emoção que comove, passa a chorar a sua dor e a alheia.

Lá para o fim do poema, como se já tivesse perdido o alento de viver, deixa escapar este triste lamento:

O inventário do que eu já tinha sido
Espantava. Restavam só de Augusto
A forma de um mamífero vetusto
E a cerebralidade de um vencido!


Mais tarde, num desalento ainda maior, assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”.

A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Perdido o amor, perdeu também a crença. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma, jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Não há, pois, que admirar chore um dia a crença perdida, a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Já cansado do ceticismo, eis que escuta, como um arrependido, os acordes saudosos do coração. Parece que desperta para a vida. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado, levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas, onde os anjos cantavam, em serenata, hosanas ao Senhor, a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração, despedaçando as imagens dos próprios sonhos, tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza, o soneto Vandalismo, que pode figurar sem favor entre os melhores da língua.

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas,
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Sua obra, já na 27ª edição, continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Nesse decurso, muitas opiniões foram veiculadas, tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Não é, pois, de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. No final de contas, cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria, a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Enfim, ler, gostar e não gostar é coisa que se não discute, mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura.

Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos, destaco Órris Soares, José Américo de Almeida, Raul Machado, Santos Neto, Álvaro de Carvalho, Flóscolo da Nóbrega, João Lélis e De Castro e Silva, este último, apenas como autor de um livro apologético, que não é biografia e não chega a ser estudo. Dos outros, há sempre o que referir, posto que, quase todos, tenham bordejado na superfície do abismo em. que se afundava a alma do poeta.

João Lélis, por exemplo, num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega, na Academia Paraibana de Letras, chegou a dizer que Augusto não era poeta. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta, reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Assim é que, ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias, disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica.
Ao contrário da incontinente afirmativa, a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. Sabe-se como compunha. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. A arte, para ele, era apenas o meio de formular soluções, em gemidos de dor, quando a aflição interior explodia em chamas devoradoras. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Bilac pode ter sido um lapidário da forma, Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro, olhar perdido no espaço, lábios crispados, a passear a esmo, enquanto forjava mentalmente a composição. Só depois de elaborada é que ia para o papel.

Órris Soares, seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória, surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta, de um a outro canto da sala, que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. Foi então que recitou de inopino, num timbre especial de voz, o que acabava de compor.

Os versos espoucavam no momento da inspiração, mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo, a sua personalidade psicológica. No entanto, essa linguagem, à primeira vista incompatível com a poesia, entrava disciplinada em seus versos, como em compasso de música. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal, o que era, na época, certa preocupação inclusive dos simbolistas. Cavalcanti Proença, em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos, disse que uma das suas forças, a densidade, reside justamente no têrmo técnico. Seus versos, com efeito, impressionam pelo poder da dialética, associado à vibração sonora. Neles, o sentimento parece ter outra dimensão.

Essa incompreensão a respeito de Augusto, essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo, tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista, sobretudo da crítica provinciana, cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava naconformidade do seu gosto. Muitas vezes, nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição.

Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos, um em 1920, o outro 25 anos depois, em 1945. Em ambos, o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta, já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto, já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Por tudo isso, afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica, insulado em sua própria grandeza, à margem das correntes estéticas do pensamento literário.

Essa crítica, que pretende ser de interpretação psicológica, tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. Anoja-se o crítico diante de cadáveres, vermes, túmulos, escarros, sangue de vísceras dilaceradas, duendes, figuras espectrais e outras visões sinistras. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias, por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico, segundo a classificação que adota de Agripino Grieco.
Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores, que não tenha fecundado a poesia nacional, como lamenta o crítico. Em ter ficado sozinho, claro que avulta ainda mais o seu mérito. Poe e Rimbaud, lá fora; Euclides da Cunha, entre nós, este na prosa, também ficaram sem seguidores. Nem por isso, ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto, reconheça-se que essa poesia é humana, por isso mesmo poética.

Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Não pode o critico ser ortodoxo. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. Mas é preciso notar que essa musa, mesmo doentia, não lhe tira o vigor da expressão verbal. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios, o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. O anojamento de Álvaro de Carvalho, como se vê, é mais uma aversão de olfato alérgico.

O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele, num dos seus últimos sonetos, deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos.

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto.


Ou então, como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade:

Pré-determinação imprescrítível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!


Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto, de sentido mais profundo, está em tempo de ser feita. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos.

Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos, elogios ou restrições, nem tudo pode ter cabimento. Há, com efeito, juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Eis porque, neste ensaio de exegese literária, tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra, na interpretação de um drama emocional, que apenas transparece em linguagem evasiva.

Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual, Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. Com Baudelaire, pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas, numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. Com Verlaine, pela tristeza indefinível da alma, no duelo da carne, manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Com Mallarmé, pelas crises espirituais porque ambos passaram, na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível, a fim de atingir, através da sensação, a idéia pura das coisas. Com Leopardi, pelo sentido da dor universal, a filosofia da dor, que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. Com Antero do Quental, pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte, desejada por um, temida pelo outro.

Só com Rimbaud, em termos de comparação, nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. O único que mencionou Rimbaud, isso mesmo de passagem, num artigo publicado em 1914, um mês após a morte de Augusto, foi José Américo de Almeida. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos, posto que as coisas que tinha a dizer exigiam, por sua natureza, palavras raras e eruditas. Segundo Delahaye, citado por Augusto Meyer, havia acentuada tendência do poeta, desde a sua fase inicial, para a neologia e o vocábulo raro. Até nas aliterações e metáforas, Augusto lembra Rimbaud, em quem se acumulam, em tropos ousados, as mesmas figuras de linguagem, de mistura com alucinações, crematismos, sensações simples e cenestesias, os mesmos descuidos de metro e rima, as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Vez por outra, ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas, usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado.

Nos transportes espirituais os dois correm parelha. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto, quando a cristandade parecia pura sobre a terra. Encontra-se, visionário, na terra santa, na postura de um campônio rústico, assentado sobre cacos de pote e urtigas, ao pé de um muro carcomido pelo tempo. A mesma coisa ocorre com Augusto. Súbito, encontra-se em Roma, numa sexta-feira santa, e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano, em grupos prosternados, guardando o corpo do Divino Mestre. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. De lá de fora, vem o barulho das matracas. Ouvindo isso, um grande medo toma conta do poeta, que dialoga com os elementos imponderáveis. “Na Eternidade, os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema, no ar de minha terra...” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia.
Não fica apenas aí o confronto. Também no amor os dois se assemelham. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor, como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. Honesto em tudo, de uma honestidade quase bravia, só nesse ponto dissimula o pensamento. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto:

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.


Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém, como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase, como neste exemplo:

Sobre histórias de amor o interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma,
Nem há mulher talvez capaz de amar-me.


Ou então como nesta outra amostra:

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a. .. ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda boca que o não prova engana.


Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer...”. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe, teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. Motivos escabrosos, é verdade, mas que o levaram ao resultado conhecido. No tempo de jovem, segundo é fama, andou conspurcado de sensações súcubas, tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine, na Bélgica. Depois desse fato, largou-se para a África, onde se casou com uma nativa da Abissínia.

Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor, embora tenham se casado e tido filhos. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. Em cada um deles, por causas várias, sente-se que há um complexo de culpa, que é talvez o drama mais crucial de suas consciências.

Há, contudo, uma diferença de fundo entre os dois poetas. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir, enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Rimbaud, depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio, em busca do paraíso terrestre, acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual, que era o seu anseio máximo. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante, converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual na natureza, homens de bem cheios de nobres intenções, o bem e o mal caminhando juntos. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto.

Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. Augusto sentia-se puro, vítima de injustiças humanas, e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo, exacerbava-a. Ninguém sofre mais do que ele, a julgar pelos seus lamentos. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede, como Tântalo, à beira da água. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas, filha legítima de sua alma. E como não pode reformar o mundo, revolta-se contra o mundo, contra a sociedade, contra a sua grei, numa reação inócua, martelada em versos magníficos e candentes.

Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Augusto vai irredento até o fim, sem preencher esse vácuo, isto é, sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Jamais desceu ao fundo de si mesmo, e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo, quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Mesmo assim, entre a voz do sentimento e a da razão, perdia-se no estado de dúvida. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo, deixava-se ficar no interior da concha. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou, do qual se considerava prisioneiro. A vida, o amor, a criação, os mistérios da natureza, tudo quanto desperta a alma, tudo quanto eleva os sentidos, luz, cor, som, perfume, beleza, nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Mallarmé também passou pelas mesmas crises, mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio, da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo.

Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja, porém, imitação. Tais similitudes valeriam,. quando muito, como fontes de inspiração, mas nem isso acredito tenha havido. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare, autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe, como Camões na de Petrarca e de Vergílio. Não raras vezes, o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor, segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Neste passo, se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias, chegaríamos por certo ao pai Homero que, segundo apregoam os fundibulários da crítica, teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época.

É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovar-se interiormente. Há muitas espécies de conversões em literatura, como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença, isto é, depois que perdeu a ilusão dos homens, conforme confissão feita a Mário de Alencar.

A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Um problema sempre gera outro. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Foi a partir daí, dessa conversão ao materialismo, que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. Por curioso paradoxo, quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Possuído do demônio da dúvida, sua vida se transforma num verdadeiro inferno. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno - Une Saison en Enfer - espécie de autobiografia moral, onde não faltavam o ranger de dentes, silvos de labaredas e suspiros de empestados.

Enredado em idéias preconcebidas, sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida, aceitar as imperfeições do mundo, olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista, teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro.

No meio em que viveu era querido e admirado. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos, supria-se do mais no magistério particular, lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência, alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar, nas Alterosas.

Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta, em meio a tantas emoções extravasadas. Alguns críticos, afetando melindres de devotos, viram nisso o pecado da blasfêmia.

Convém, todavia, que se veja na blasfêmia, quando não proferida por modo vulgar e chulo, um pedido de socorro. É o que há, na realidade, nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Isso mostra que ele, tal como Rimbaud, se manifesta ainda escravo do batismo. Se o Cristo não vem em seu auxílio, a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo, sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre.

Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença, há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo, mas os que o seguem desconhecem, via de regra, a essência dos Evangelhos. Na prática, uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito, outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. Todos nós, com raríssimas exceções, descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa, certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas.

Se há Deus, se não há Deus, é questão que não deve ser formulada, porquanto Deus é princípio e é fim, é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Vale mencionar, a propósito, um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema, levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Os oradores, em torrentes de eloqüência, se sucediam na tribuna, uns afirmando, outros negando. Ao cabo do bombardeio oratório, como ninguém ainda se entendesse, resolveu o presidente submeter a questão a votos. Apurada a eleição e com base no resultado, proclamou que Deus não existe.

Ora, decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó, é, a meu ver, heresia maior que a do poeta quando, no desespero de tantos sofrimentos, atormentado por visões escatológicas, explodiu em As Cismas do Destino, depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas:

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!


Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. Por outro lado, não se pode dizer fosse ele um materialista ético. De inflexões mentais sua obra anda cheia. E como era sincero e honesto, virtudes que cultivava com extremado zelo, nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina, coisa que não cabe na boca de um ateu. De outras vezes, dá à alma a denominação de sombra, esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas, encarnado nele e manifestado nesta passagem:

Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?


Já em Monólogos de uma Sombra, começa o poema “Sou uma Sombra.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto - Debaixo do Tamarindo.

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!


Por sombra, os filósofos iônios, desde Tales de Mileto, entendiam a alma. A denominação, como se vê, vem de muito longe, através dos séculos. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia, por mãos de seu filho Pirro, o sacrifício da linda moça Polixena. Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma, como entidade eterna, conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem, tal como a entendiam os filósofos iônios, desde o declínio das crenças mitológicas. É a substância primeva, à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel, virtualidade espiritual, mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria, larva do caos telúrico, que procede do éter cósmico, da substância de todas as substâncias. Até Deus, para ele, era uma mônada, como está dito em Sonhos de um Monista:

A verdade espantosa do protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus - essa mônada esquisita -
Coordenando e animando tudo aquilo!


Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. Fala como um crente da cegueira da criatura humana, que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo, até mesmo num grão de areia. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência, acrescenta, então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. Assim fala e assim termina a composição:

A Verdade virá das pedras mortas
E o homem compreenderá todas as portas
Que ainda tem de abrir para o infinito!


Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. Daí por diante, isto é, nas composições que vão até o fim do livro, o metafísico cede lugar ao inveterado monista, perdendo-se novamente no enleio cósmico, ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres, sua intimidade numenal, de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. Choram ainda dentro dele, em soluços quase humanos, as formas microscópicas do mundo. Assim vai, em briga com o dualismo, vacilante na ciência fria, assaltado de alucinações, até que morre numa cidade das Alterosas, em Leopoldina, aos 30 anos de idade, a 12 de novembro de 1914. *

+++++++++++++++++


Este trabalho, tal como se apresenta, foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960, na Federação das Academias de Letras do Brasil. Mais poderia dizer agora, mas com o que ai está me contento. Que outros, mais dotados de inteligência e espírito de penetração, completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia, que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano.


(do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos,
ed. Gráfica Ouvidor, RJ, 1962)


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Hugo de Santis

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